Tentação de Zaratustra

Ouço estridente o gemido do morto,
Do morto de espírito, defunto ambulante.
Buscando nos restos algum reconforto,
Espalhando o veneno contaminante.

Clama por graça, pois nada tem
E graça é fomento de covardia.
Da glória e da força se abstém
E o ídolo morto reverencia.

A pútrida carne é lazer de insetos,
E já esquecera o sabor do prazer.
Só resta-lhe o empecilho secreto:
Forçar o honroso a compadecer.

Compaixão é ardilosa patologia,
Às garras da injúria a pessoa entrega.
Eleva-te, do descaso alheio sorria,
E põe a fraqueza virosa por terra!

Autor: Cheirador de cu sujo


Energia potencial cancerígena

Num fétido peido astronômico
Alguns átomos perdem potência
Cedem a seus rivais antagônicos
E comprimem-se em reverência.

Ao decorrer do teatro escombroso
Surgem as catástrofes universais:
A desgraça da vida em pele e osso,
As plantas, insetos e animais.

E nos animais é onde habita
Matéria em forma mais decadente
Fezes, vísceras, ácido e tripas,
Pelos, chifres e sangue quente.

É nesta maneira medonha de ser
Que sonha a matéria em ser algo mais
Algo que faça a desgraça valer
Um fiasco, ao menos; pra mim tanto faz.

Autor: Necrófilo anônimo


Putrefação objectual

Não há, neste mundo, palavras
Que expressem a realidade
Não há, neste mundo, estradas
Que levem-nos até a verdade.

A realidade é critério seguro
Pra medir o teor do funesto
Pois nela há nada de puro
Só horror, traição e incesto.

Não há o mundo falacioso
Da realidade externa e fixa
E o que há cá dentro é viscoso
E fede à fezes e tripas.

A mesquinhez da escrita é digna
De pertencer a alguém como eu
Com ela imprimo de forma explícita
O cheiro do sangue do deus que morreu.

Autor: Suicida comedor de merda